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Aniam
07/03/2020

PRESIDENTE DA TAURUS DIZ QUE LEI é BOA, MAS COMPRAR UMA ARMA DEMORA 8 MESES

Uma das promessas do presidente Jair Bolsonaro em sua campanha eleitoral de 2018 foi a flexibiliza√ß√£o das regras para compra e venda de armas. Atualmente, Projeto de Lei enviado pelo governo ao Congresso prop√Ķe mudan√ßas no Estatuto do Desarmamento. Aprovado pela C√Ęmara em novembro do ano passado, ele agora est√° em discuss√£o no Senado.

O presidente da Taurus, maior fabricante de armas leves do Brasil, Salesio Nuhs não vê necessidade de mudanças na atual legislação brasileira de compra e porte de armas, que ele considera não ser ''restritiva''. Ele só considera que o processo ainda está muito lento e demora até oito meses para alguém comprar uma arma.

''O Brasil talvez hoje, entre todos os pa√≠ses do mundo, seja o que tem a legisla√ß√£o mais adequada para o com√©rcio de armas e muni√ß√Ķes'', afirma.

Em entrevista ao UOL, Nuhs também questionou a atual carga de impostos sobre armas, rebateu críticas do filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), aos produtos da empresa e falou os planos da companhia para o mercado externo.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

UOL - Uma das promessas de campanha do presidente Jair Bolsonaro era flexibilizar as regras para compra e porte de armas. Após pouco mais de um ano de governo, como o senhor avalia o que mudou desde então?

Salesio Nuhs - A compra de uma arma de fogo não é impulsiva. A compra de uma arma de fogo é responsável. Eu não critico a burocracia. Eu acho que o Brasil tem uma lei muito importante para a compra de armas. Você tem que fazer teste prático, psicotécnico, não pode ter antecedentes. Tem uma série de coisas.
O que mudou, e que na prática ainda não está acontecendo, é a agilidade no processo. O processo ainda é muito lento, porque houve uma procura muito grande [por armas], e os órgãos, tanto da Polícia Federal quanto do Exército, não se equiparam, não se atualizaram para atender essa demanda. O processo de compras de armas demora hoje oito meses para acontecer.
No passado era quase proibitiva a compra, porque era uma questão de governo. No referendo [sobre venda de armas] de 2005 nós ganhamos o direito de poder comprar uma arma de fogo para a defesa da propriedade, da família, porém não levamos.
Porque na prática era quase impossível comprar uma arma de fogo, por causa da burocracia, prazos, dificuldades e tudo o mais. Quando você conseguia chegar no final da documentação, os primeiros documentos que você juntava já estavam vencidos, e tinha que começar todo o processo de novo.
Isso j√° melhorou, mas ainda n√£o est√° resolvido. Tem que melhorar muito.

UOL - O senhor vê necessidade de alguma mudança na legislação atual de porte ou compra de armas?

Salesio Nuhs - Pelo contrário. Acho que a nossa legislação é clara para o produto que nós estamos falando. Ela não é restritiva. Eu realmente não acho que ela seja restritiva. Ela tem o peso necessário para o produto que é. A liberação dos calibres e tudo o mais está perfeito.
O Brasil talvez hoje, entre todos os pa√≠ses do mundo, seja o que tem a legisla√ß√£o mais adequada para o com√©rcio de armas e muni√ß√Ķes.

UOL - No ano passado, ap√≥s o an√ļncio do decreto que flexibilizava a compra de armas, a Taurus chegou a divulgar que a venda do fuzil T4 seria liberada para civis.

Salesio Nuhs - Hoje os colecionadores, caçadores e atiradores [desportivos] já podem comprar. São civis. Está liberada a venda do T4.

UOL - Mas o governo negou que o decreto liberaria a venda de fuzis a civis.

Salesio Nuhs - Na verdade, houve uma s√©rie de interpreta√ß√Ķes. Em um primeiro momento houve uma interpreta√ß√£o de que qualquer civil poderia comprar o T4. Que 200 milh√Ķes de brasileiros iriam comprar um fuzil. Isso nunca aconteceu.
O decreto precisava ser regulamentado, e ele foi regulamentado pelas portarias. E estabelece claramente quem √© que pode comprar. Quem pode comprar n√£o √© o cidad√£o comum. Quem pode comprar √© aquele cidad√£o que tem uma qualifica√ß√£o, que seja colecionador, ca√ßador, atirador ou um profissional da seguran√ßa p√ļblica.

UOL - O senhor √© a favor de uma mudan√ßa no Estatuto do Desarmamento, que est√° sendo analisada pelo Senado, para acabar com a obriga√ß√£o da marca√ß√£o de muni√ß√Ķes vendidas para as pol√≠cias e Ex√©rcito?

Salesio Nuhs - N√£o, pelo contr√°rio. Isso √© uma tecnologia da CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos). √Č uma ind√ļstria nacional. A √ļnica empresa no mundo que marca a muni√ß√£o. A CBC desenvolveu essa tecnologia. Essa tecnologia, inclusive, foi elogiada pela ONU. E n√£o teve nenhum caso no Brasil em que foi solicitada a identifica√ß√£o de quem foi o √≥rg√£o que comprou aquela muni√ß√£o, que n√£o tenha sido identificado. Pelo contr√°rio, a ind√ļstria nacional hoje est√° na vanguarda com rela√ß√£o a essa tecnologia.

UOL - Recentemente o senhor esteve na √ćndia, onde a Taurus assinou uma joint venture com a empresa indiana Jindal Group para fabrica√ß√£o de armas no pa√≠s. A √ćndia passa a ser um foco da Taurus neste momento?

Salesio Nuhs - Temos um foco na exporta√ß√£o para fora dos Estados Unidos no nosso planejamento estrat√©gico. A Taurus sempre foi muito focada em venda de produtos de uso civil para os Estados Unidos. Cerca de 80% da nossa produ√ß√£o ainda vai para os EUA. A gente quer se fortalecer no resto do mundo, fora dos Estados Unidos. N√£o t√≠nhamos produtos voltados para o mercado policial e militar. Nessa reorganiza√ß√£o toda da companhia, criamos um portf√≥lio completo de produtos para o p√ļblico policial e militar. E isso deu uma exposi√ß√£o para a Taurus muito grande no mundo inteiro.

UOL - Qual √© a expectativa de produ√ß√£o na √ćndia?

Salesio Nuhs - A nossa expectativa √© come√ßar no segundo semestre a produ√ß√£o de armas civis. Seriam basicamente rev√≥lveres e pistolas. Porque as armas policiais e militares dependem, como aqui no Brasil, de licita√ß√Ķes p√ļblicas. Em um segundo momento a gente vai produzir l√° as armas que essa empresa ganhar nas licita√ß√Ķes p√ļblicas. Recentemente n√≥s ganhamos uma licita√ß√£o do ex√©rcito das Filipinas, de fuzil. Existe no ex√©rcito indiano uma expectativa de compra de meio milh√£o de fuzis em cinco anos. N√≥s estamos de olho exatamente nesses grandes volumes do mercado policial e militar.

UOL - E para o mercado brasileiro, quais s√£o os planos?

Salesio Nuhs - A Taurus tem uma participa√ß√£o de quase 100% no mercado nacional de armas. S√£o poucas as importa√ß√Ķes [de armas], apesar de o mercado j√° estar aberto h√° um bom tempo. O mercado civil brasileiro √© pequeno. N√£o justifica nenhuma concorrente nossa investir aqui no Brasil. Agora, pior do que isso, √© que a legisla√ß√£o tribut√°ria e regulat√≥ria no Brasil impede de montar uma f√°brica aqui. √Č muito melhor exportar uma arma para c√° do que produzir aqui e pagar 70% de impostos [sobre armas]. Se n√≥s n√£o f√īssemos brasileiros, se n√£o tiv√©ssemos orgulho de ser brasileiros, de gerar empregos aqui no Brasil, de pagar impostos aqui no Brasil, seria muito melhor eu exportar armas da minha f√°brica nos Estados Unidos para c√° ou da minha futura f√°brica na √ćndia para c√°, porque entra sem nenhum imposto. A outra quest√£o √© a regulat√≥ria. A Taurus hoje tem na fila do √≥rg√£o homologador mais de 200 armas esperando autoriza√ß√£o para vender aqui. Quando voc√™ importa uma arma, n√£o tem isso.

UOL - O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) defendeu a entrada de fabricantes estrangeiros para aumentar a concorrência e acabar com um virtual monopólio da Taurus no Brasil. Como o senhor vê essa declaração?

Salesio Nuhs - Quando ele esteve na √ćndia com a comitiva do presidente, ele deu uma declara√ß√£o dessa e eu disse exatamente isso. Ningu√©m vai montar uma f√°brica aqui no Brasil, √© bobagem, porque ningu√©m vai montar uma f√°brica para pagar 70% de imposto. N√£o existe um monop√≥lio da Taurus. No passado, as importa√ß√Ķes eram restritas. Hoje n√£o h√° nenhuma restri√ß√£o para importa√ß√£o. Hoje o cliente pode escolher entre uma arma da Taurus e uma importada. A nossa arma hoje √© uma op√ß√£o do consumidor brasileiro, n√£o √© a √ļnica op√ß√£o. [A arma da Taurus] tem o melhor custo-benef√≠cio. Tem um pre√ßo muito acess√≠vel. Nenhuma empresa consegue vender aqui no Brasil pelo pre√ßo da Taurus. O problema de s√≥ ter uma empresa no Brasil n√£o √© da Taurus, √© um problema da conjuntura. Eu digo o seguinte: do jeito que est√° organizada a quest√£o tribut√°ria e a quest√£o regulat√≥ria no Brasil, ningu√©m vai investir aqui no Brasil.

UOL - O deputado tamb√©m j√° fez cr√≠ticas √† qualidade das armas da Taurus. Como o senhor v√™ essas declara√ß√Ķes?

Salesio Nuhs - A ideia das pessoas √© livre. Eu n√£o tenho absolutamente nenhum problema de relacionamento com o Eduardo, eu conhe√ßo o Eduardo h√° muitos anos, muito antes de eu estar aqui na Taurus. Respeito-o bastante, √© um deputado que teve uma vota√ß√£o expressiva em S√£o Paulo. √Č um deputado que a gente respeita. Eu respeito particularmente. Agora, ele tem a ideia dele e tem todo o direito de ter a ideia dele.

UOL - E como o senhor vê a percepção de agentes de segurança, policiais, que já fizeram críticas à qualidade das armas da Taurus?

Salesio Nuhs - Hoje a Taurus recuperou a imagem dela, recuperou a credibilidade. A Taurus passou por um trope√ßo muito grande, e n√≥s reconduzimos a Taurus para o local de onde ela nunca deveria ter sa√≠do. N√≥s somos uma empresa de 80 anos e a quarta marca mais vendida no maior mercado de armas do mundo, que √© o americano. E o cidad√£o americano, no segmento de armas e muni√ß√Ķes, √© um consumidor extremamente exigente.

UOL - O aumento de participação de outras empresas no mercado poderia aumentar a qualidade das armas?

Salesio Nuhs - Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A Taurus passou por todo um processo de reestruturação. A primeira coisa que fizemos nessa atual gestão foi estabelecer processos de produção robustos, de qualidade e de logística, para garantir a integridade dos nossos produtos. A qualidade, integridade e confiabilidade do nosso produto não têm nada a ver com abertura de mercado.

UOL - O governo falou recentemente sobre a possibilidade de aumentar os impostos sobre produtos que têm uma tributação até mais pesada do que as armas, como tabaco e álcool. Neste cenário, o senhor vê uma perspectiva de que os impostos sobre armas diminuam?

Salesio Nuhs - Isso seria muito bem-vindo. N√£o posso responder por uma a√ß√£o de governo, mas isso seria muito bem-vindo pela popula√ß√£o. Porque a popula√ß√£o sabe que, quando compra uma arma, dois ter√ßos [do pre√ßo] s√£o impostos. Seria uma a√ß√£o para a seguran√ßa p√ļblica, para a seguran√ßa das pessoas que hoje n√£o t√™m acesso por conta de custo. indispon√≠vel no momento

(Via: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/07/entrevista-salesio-nuhs-taurus.htm_)

 

 


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